
Resultado fundamental na vitória de 2022, o Nordeste voltou ao centro da estratégia eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Levantamentos recentes indicam desgaste na avaliação do governo e aumento da rejeição ao petista na região. Além disso, disputas entre aliados em vários estados criam um cenário político mais complexo para quem busca garantir a reeleição e manter a força histórica do partido no principal reduto eleitoral.
Historicamente, o Nordeste garantiu vantagem decisiva para Luiz Inácio Lula da Silva nas últimas eleições presidenciais. Em 2022, o petista venceu na região com ampla margem sobre Jair Bolsonaro, conquistando cerca de 69% dos votos contra pouco mais de 30%. Diferença superior a 12 milhões de votos ajudou a compensar derrotas em outras regiões do país e abriu caminho para o terceiro mandato do líder petista.
Pesquisas recentes do Datafolha mostram que o presidente ainda mantém maioria entre eleitores nordestinos, porém com perda de fôlego. Em março de 2022, cerca de 27% afirmavam que não votariam nele de jeito nenhum. Agora, o índice de rejeição subiu para 33%. O levantamento também indica que o petista teria hoje 59% das intenções de voto na região contra 30% do senador Flávio Bolsonaro.
Avaliação do governo segue positiva, mas também apresenta sinais de desgaste. Em setembro de 2023, quase metade dos moradores da região classificava a gestão como ótima ou boa. Atualmente, esse percentual caiu para 41%. Ao mesmo tempo, a avaliação negativa subiu para 29%, revelando uma redução significativa da vantagem que antes era confortável para o Palácio do Planalto.
Estratégia petista observa outro fator relevante nas pesquisas: a rejeição ao senador Flávio Bolsonaro cresceu de forma acelerada entre eleitores nordestinos. Em 2024, cerca de um terço afirmava que não votaria no parlamentar. Agora, o número chegou a mais da metade dos entrevistados, cenário que ainda mantém vantagem para o presidente no principal reduto eleitoral.
Paralelamente aos números das pesquisas, conflitos políticos dentro da própria base governista ampliam o desafio para a campanha de reeleição. Pelo menos seis dos nove estados nordestinos enfrentam disputas internas entre partidos aliados e até entre lideranças do próprio Partido dos Trabalhadores. Esses embates envolvem sucessão estadual, candidaturas ao Senado e projeções para eleições futuras.
Situação delicada aparece de forma clara no Piauí, estado onde o presidente obteve uma de suas maiores votações. O governador Rafael Fonteles entrou em atrito com o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, após divergência sobre a escolha do candidato a vice-governador. A disputa expôs tensões internas dentro do próprio partido.
Conflitos semelhantes também se intensificam na Bahia. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, e o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, protagonizam uma disputa política que já provocou rompimentos e pressões internas. Parte do grupo chegou a defender a candidatura de Costa ao governo estadual, ideia rejeitada pelo grupo aliado ao senador.
Cenário igualmente tenso se desenha no Ceará. O governador Elmano de Freitas enfrenta ameaça eleitoral do ex-ministro Ciro Gomes, enquanto lideranças petistas travam disputa sobre quem disputará uma vaga no Senado. O deputado José Guimarães defende candidatura própria e alerta que fortalecer a bancada governista será crucial para um eventual quarto mandato presidencial.
Ambiente político ainda se complica em estados como Pernambuco, Maranhão e Paraíba, onde múltiplos aliados disputam apoio do presidente. Em algumas regiões, a presença de mais de um candidato aliado pode gerar palanques duplos, situação que costuma provocar desgaste eleitoral e dividir militâncias durante a campanha.
Dirigentes do Partido dos Trabalhadores reconhecem que a fragmentação exige atenção, mas minimizam o risco eleitoral. O secretário-executivo da legenda, Henrique Fontana, afirma que divergências fazem parte de alianças amplas e que o partido considera melhor administrar excesso de apoios do que enfrentar falta de aliados.
Panorama político indica que o Nordeste continuará sendo peça-chave para a disputa presidencial de 2026. Manter vantagem expressiva na região aparece como missão estratégica para Luiz Inácio Lula da Silva, que dependerá da recomposição de alianças e da recuperação da popularidade para repetir o desempenho que garantiu sua vitória nacional quatro anos atrás.