
Júri popular que vai decidir o destino do caminhoneiro Gonçalo Meira Neves Neto acontece nesta quinta-feira (19) no Fórum da comarca de Brumado, no sudoeste da Bahia. O réu é acusado de provocar uma das ocorrências mais violentas já registradas no distrito de Itaquaraí, quando avançou com um carro contra um quiosque cheio de pessoas e matou um homem.
Crime ocorreu na noite de 1º de setembro de 2023 e deixou marcas profundas na comunidade. Segundo a investigação, Gonçalo chegou embriagado ao bar conhecido como “Quiosque do Marreco”, discutiu com frequentadores e saiu do local após ser retirado por clientes. Minutos depois, voltou dirigindo em alta velocidade e lançou o veículo diretamente contra quem estava no estabelecimento.
Tragédia começou após um pedido de cerveja. Testemunhas contaram à polícia que o acusado entrou no quiosque por volta das 23h, bateu uma lata de bebida no balcão e exigiu que o dono do bar, Ediclei Xavier dos Santos, lhe vendesse cerveja. O comerciante percebeu que o homem estava alterado e se recusou a atendê-lo, iniciando uma discussão diante dos clientes.
Confusão escalou rapidamente. Pessoas que estavam no local disseram que Gonçalo passou a xingar frequentadores, chamando todos de “corno”. Em meio ao bate-boca, ele ainda teria arremessado uma lata de cerveja contra o rosto do proprietário do quiosque, aumentando a tensão e obrigando os presentes a intervir para evitar uma briga maior.
Clientes retiraram o motorista do bar e o levaram até o carro para que ele fosse embora. Entre as pessoas que tentaram acalmar a situação estava o lavrador Edvam Bernardes, descrito por moradores como alguém querido e respeitado na comunidade. Ele ajudou a colocar Gonçalo dentro do veículo, acreditando que o conflito terminaria ali.
Situação, porém, tomou rumo trágico poucos minutos depois. Testemunhas afirmaram que o acusado dirigiu cerca de trezentos metros, mandou a esposa e um amigo descerem do carro e retornou sozinho ao quiosque. Em seguida, acelerou o veículo e avançou em direção à praça onde funcionava o estabelecimento.
Impacto foi devastador. O carro subiu o meio-fio da praça, atravessou o espaço onde estavam cadeiras e mesas e atingiu diretamente o quiosque. Pessoas foram arremessadas, estruturas metálicas se dobraram e o local ficou destruído. Moradores disseram que tudo aconteceu em segundos, sem tempo para reação.
Vítima fatal foi o próprio lavrador que havia tentado evitar a confusão. Edvam Bernardes morreu no local após ser atingido pelo veículo. O homem era conhecido no distrito e sua morte provocou forte comoção entre moradores que presenciaram a cena.
Outras cinco pessoas ficaram feridas. Entre elas estavam o dono do quiosque, a esposa dele, dois clientes e um menino de 11 anos que estava no local com familiares. Segundo depoimentos no processo, a criança foi arremessada com o impacto e chegou a ficar semanas sem conseguir andar normalmente.
Relatos apresentados à Justiça mostram que algumas vítimas sofreram lesões graves. Um dos sobreviventes fraturou sete costelas, teve perfuração no pulmão e precisou ficar dias internado. O proprietário do quiosque sofreu ferimentos na perna e no abdômen e afirmou ter perdido cerca de R$ 40 mil em prejuízos com a destruição do estabelecimento.
Violência não teria terminado com o atropelamento. Testemunhas disseram que, após bater o carro no quiosque, Gonçalo saiu do veículo, pegou uma cadeira e tentou atingir novamente o dono do bar. Populares reagiram rapidamente e conseguiram imobilizar o homem antes que ele continuasse as agressões.
Moradores revoltados iniciaram uma tentativa de linchamento. Pessoas que estavam na praça cercaram o acusado e começaram a agredi-lo, mas a situação foi controlada com a chegada da Polícia Militar. Os agentes contiveram o homem e evitaram que ele fosse morto no local.
Policiais afirmaram que o motorista apresentava sinais evidentes de embriaguez. Ele teria chutado a parte interna da viatura e, segundo depoimento de um militar, ainda fez uma ofensa de cunho racial ao chamá-lo de “urubu”. O teste do bafômetro confirmou que o acusado havia ingerido álcool.
Ministério Público denunciou Gonçalo por homicídio qualificado, cinco tentativas de homicídio qualificado, injúria racial e embriaguez ao volante. Promotores sustentam que o crime foi cometido por motivo fútil, após uma discussão banal, e que o acusado usou um meio extremamente perigoso ao transformar o carro em arma.
Justiça decidiu levar o caso ao Tribunal do Júri após entender que existem provas da materialidade e indícios suficientes de autoria. O juiz responsável pela decisão, Genivaldo Alves Guimarães também manteve a prisão preventiva do acusado, citando a gravidade do crime, o número de vítimas e o impacto causado na comunidade.
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