
Levantamento da AtlasIntel em parceria com o jornal Estadão revela um cenário alarmante para o Supremo Tribunal Federal: seis em cada dez brasileiros afirmam não confiar na mais alta instância do Judiciário. O índice, divulgado nesta sexta-feira (20), é o maior já registrado desde o início da série histórica, em janeiro de 2023, e escancara uma crise de credibilidade sem precedentes.
Dados apontam que apenas 34% dos entrevistados ainda confiam na Corte, enquanto outros 6% não souberam opinar. O contraste com o início da pesquisa impressiona: há pouco mais de dois anos, confiança e desconfiança estavam praticamente empatadas, evidenciando uma deterioração acelerada da imagem do tribunal diante da opinião pública.
Crescimento da rejeição ocorre em meio ao escândalo envolvendo o Banco Master, que levantou suspeitas graves sobre a relação entre magistrados e o banqueiro Daniel Vorcaro. A condução do caso gerou forte repercussão e alimentou a percepção de falta de imparcialidade dentro da Corte, um dos pilares fundamentais para a confiança institucional.
Percepção negativa se intensifica quando 66,1% dos entrevistados afirmam acreditar que ministros do STF têm envolvimento direto no caso. Entre os nomes citados estão Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques, todos associados a suspeitas ou relações indiretas com o banco investigado por fraudes financeiras.
Avaliação pública também indica desconfiança quanto à independência dos julgamentos: 76,9% acreditam que há forte influência externa — seja de políticos, partidos ou grupos poderosos — nas decisões do Supremo. Esse dado reforça a ideia de que o tribunal estaria distante da neutralidade esperada pela população.
Especialistas apontam que o impacto vai além de um único caso. Segundo Oscar Vilhena, a autoridade de uma Corte depende de independência, imparcialidade e objetividade. Quando um desses pilares é questionado, como ocorre agora, a confiança pública tende a desmoronar rapidamente.
Análise política revela ainda um país profundamente dividido. Entre eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro, a rejeição ao STF chega a 96,5%. Já entre apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o cenário se inverte, com 71,4% declarando confiança na Corte.
Reação institucional tenta conter a crise com propostas internas. O presidente do STF, Edson Fachin, defende a criação de um código de ética para os magistrados, medida que conta com apoio de 57% dos entrevistados. A iniciativa, relatada por Cármen Lúcia, surge como tentativa de recuperar a credibilidade abalada.
Cenário expõe um dos momentos mais delicados da história recente do Supremo. Pressionado por denúncias, polarização política e perda de confiança popular, o tribunal enfrenta o desafio de reconstruir sua imagem enquanto permanece no centro das decisões mais sensíveis do país.