
Rosilene de Santana Souza, filha de trabalhadores rurais e criada na comunidade de Pajeú, em Oliveira dos Brejinhos, no sertão da Bahia, superou a pobreza até se tornar juíza. Durante a infância, enfrentou falta de professor, fome e dificuldades para permanecer na escola. Trabalhou como doméstica, dividiu calçados com a irmã e chegou a pedir ossos em um açougue para conseguir complementar a alimentação. Anos depois, conquistou o primeiro lugar em um concurso para a magistratura.
Natural da região de Oliveira dos Brejinhos, Rosilene cresceu com seis irmãos em uma família de trabalhadores rurais. Aos 10 anos, ficou sem frequentar a escola porque não havia professor na comunidade onde morava. Desde pequena, porém, demonstrava interesse por questões de justiça entre os irmãos. Os pais passaram a chamá-la de “juíza da casa” durante as discussões familiares. O apelido, inicialmente uma brincadeira, acabou associado ao sonho profissional que ela levaria para a vida adulta.
Aos 12 anos, Rosilene deixou a comunidade rural com a irmã Regina, então com 13 anos, para continuar os estudos em Oliveira dos Brejinhos. As duas caminhavam por quilômetros até alcançar a estrada e dependiam de caronas em caminhões para chegar à cidade. Longe dos pais e sem recursos suficientes, enfrentaram períodos em que a alimentação disponível se restringia à refeição oferecida pela escola. Em meio à escassez, chegaram a procurar restos de ossos no açougue municipal para complementar a comida.
Paralelamente aos estudos, Rosilene realizou pequenos trabalhos domésticos para conseguir algum dinheiro. O pagamento chegava a cerca de R$ 20 por serviço, enquanto ela e a irmã precisavam compartilhar roupas e calçados. Para frequentar as aulas, as duas organizavam os horários de modo que uma usasse o mesmo par de calçados pela manhã e a outra à tarde. Mesmo diante das limitações, a educação permaneceu como prioridade para as duas irmãs.
Aos 19 anos, Rosilene mudou-se para Colatina, no Espírito Santo, com o objetivo de cursar Direito. Para pagar a graduação, trabalhou como empregada doméstica, mas percebeu que a renda não seria suficiente para manter a faculdade. Em seguida, fez o curso técnico de Edificações no Instituto Federal e conseguiu uma oportunidade profissional com remuneração maior. Depois, obteve uma bolsa de 50% e finalmente ingressou no curso de Direito.
Ainda durante a graduação, no nono período, Rosilene foi aprovada no exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Após concluir o curso, passou a trabalhar como advogada e iniciou a preparação para ingressar na magistratura. Foram 14 concursos até alcançar a aprovação no Tribunal de Justiça do Acre. No processo seletivo, ela conquistou o primeiro lugar e posteriormente tomou posse como juíza de Direito.
Atualmente, Rosilene atua na 2ª Vara Cível de Cruzeiro do Sul, no Acre, conforme registros recentes do Judiciário estadual. A trajetória profissional representa a continuidade de um projeto iniciado ainda na infância, quando a estudante enfrentava dificuldades para ter acesso à escola. A formação acadêmica e os anos de preparação permitiram que ela chegasse à carreira que passou a desejar desde as brincadeiras com os irmãos.
Além da conquista profissional, a trajetória reúne episódios de pobreza, trabalho e dificuldades de acesso à educação. A falta de professor na infância, a distância percorrida para estudar, a necessidade de trabalhar e as limitações financeiras acompanharam diferentes fases da formação. Mesmo após concluir o curso de Direito, Rosilene precisou enfrentar sucessivas tentativas em concursos até alcançar a aprovação que a levou à magistratura.
Hoje, a história iniciada na comunidade rural de Pajeú atravessa as fronteiras de Oliveira dos Brejinhos e chega ao Judiciário do Acre. A menina que precisou dividir um par de calçados para estudar tornou-se magistrada após anos de formação e preparação. Sua trajetória reúne educação, trabalho e persistência como elementos centrais de uma mudança que começou em condições de extrema dificuldade e terminou com a conquista da carreira desejada.