
O cenário político após o primeiro turno das eleições presidenciais antecipou as discussões sobre a sucessão de Paulo Gonet no comando da Procuradoria-Geral da República (PGR). O mandato do atual procurador-geral termina em dezembro de 2027, mas o debate ganhou força diante do desempenho eleitoral do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do desgaste interno provocado por questionamentos relacionados a Gonet.
A discussão também foi impulsionada pela divulgação de mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Nos diálogos, o advogado Ciro Soares encaminha fotografias do procurador-geral e mensagens atribuídas a ele. Gonet declarou que conversou com Vorcaro apenas uma vez, de maneira “brevíssima e banal”, durante um evento realizado em 2024 e custeado pelo empresário.
O caso chegou ao Conselho Superior do Ministério Público Federal (MPF), que analisou um pedido de investigação contra Gonet. Em votação realizada em 25 de setembro, o colegiado rejeitou a abertura de apuração por cinco votos a quatro. Apesar da decisão, o resultado apertado provocou desconforto entre integrantes da instituição, com questionamentos sobre a conveniência de o procurador-geral permanecer à frente do caso.
Entre os nomes considerados próximos ao campo político de Flávio Bolsonaro estão o ex-procurador-geral Augusto Aras e a subprocuradora-geral Lindôra Araújo. Aras comandou a PGR entre 2019 e 2023, durante o governo Jair Bolsonaro, e reúne condições para voltar ao cargo. Ele tem 67 anos, permanece na carreira do Ministério Público e, segundo pessoas próximas, dedica-se atualmente à atividade acadêmica na Universidade de Brasília (UnB).
Lindôra, que atuou como vice-procuradora-geral durante parte da gestão de Aras, também é mencionada nas discussões por sua proximidade com a família Bolsonaro e por manifestações em investigações envolvendo o ex-presidente e aliados. No entanto, ela completará 75 anos em dezembro de 2027, quando deverá ocorrer a troca de comando na PGR, e terá de se aposentar compulsoriamente, o que inviabiliza sua indicação para o posto.
No campo governista, ainda não há definição pública sobre quem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escolheria para suceder Gonet, nem sobre a possibilidade de conceder a ele um terceiro mandato. Um dos nomes considerados é o do atual vice-procurador-geral da República, Hindemburgo Chateaubriand. Em 2023, quando Lula escolheu Gonet pela primeira vez, outros integrantes da carreira também haviam manifestado interesse no cargo.
Paralelamente, a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) deve retomar a discussão sobre a elaboração de uma lista tríplice de candidatos à chefia da PGR. A entidade deixou de apresentar a relação em 2025, após Lula decidir antecipadamente pela recondução de Gonet. A lista é uma tradição da categoria, mas não existe obrigação legal de o presidente escolher um dos nomes indicados, como ocorreu em decisões anteriores de Lula e Jair Bolsonaro.
A expectativa é que o debate sobre a formação da lista para a próxima sucessão avance ainda no primeiro semestre de 2027, meses antes do encerramento do mandato de Gonet. A escolha do novo procurador-geral caberá ao presidente da República e deverá considerar o cenário institucional e político vigente naquele período.