
Crise atravessa o campo da direita no Brasil após a adoção de discursos e práticas associadas à extrema direita. A avaliação é do historiador Odilon Caldeira Neto, da UFJF, que aponta confusão de identidades políticas e defende autocrítica profunda como única saída para reconstruir credibilidade e reocupar espaço democrático perdido nos últimos anos.
Segundo o pesquisador, a radicalização empurrou setores conservadores para uma linguagem antidemocrática, marcada por culto à autoridade, rejeição às instituições e descrédito eleitoral. Esse movimento, intensificado após a ascensão de Jair Bolsonaro, diluiu fronteiras entre direita tradicional e extrema direita, criando um impasse político difícil de reverter sem revisão interna.
Para Odilon, Bolsonaro exemplifica esse processo ao migrar de uma direita radical para uma postura claramente extremista. Embora tenha chegado ao poder pelo voto, o ex-presidente passou a defender rupturas institucionais. O historiador afirma que entender essas mutações ajuda a mapear riscos e a diferenciar projetos democráticos de agendas autoritárias.
Debate acadêmico sobre o termo bolsonarismo segue aberto, mas o professor avalia que ele funciona como categoria analítica. O conceito ajuda a explicar a convergência de grupos diversos, como conservadorismos religiosos, militares, agronegócio e pautas antifeministas, todos reunidos sob um mesmo discurso político de extrema direita.
Avaliação sobre o futuro indica que o extremismo tende a persistir sem uma revisão profunda. Odilon afirma que a desconfiança nas urnas e no processo eleitoral antecede Bolsonaro, mas se agravou com sua liderança. A direita, diz ele, precisa reconhecer erros, recuperar limites democráticos e reconstruir linguagem política própria.
Cenário eleitoral de 2026 pode ampliar a pulverização do discurso extremista, sobretudo nas eleições proporcionais. O historiador vê espaço para figuras digitais e ultraliberais, inspiradas em estratégias internacionais, embora considere improvável que liderem o campo majoritário, hoje concentrado na manutenção de poder do núcleo bolsonarista.
Alerta final recai sobre o uso de simbologias cifradas por grupos neofascistas. Emojis, sinais e referências históricas substituem símbolos explícitos proibidos por lei. Odilon defende ampliar o mapeamento institucional dessas redes, investir em prevenção e atualizar a leitura do fenômeno para além do debate jurídico.