
Integrantes da cúpula da Procuradoria-Geral da República avaliam que as menções ao procurador-geral Paulo Gonet em mensagens de Daniel Vorcaro expõem a instituição a uma crise inédita. Apesar do desconforto interno, os procuradores consideram que não há, até o momento, elementos suficientes para transformar Gonet em alvo de investigação.
Entre os diálogos analisados pela Polícia Federal, há mensagens em que o advogado Ciro Soares encaminha a Vorcaro conteúdos atribuídos a Gonet. Em outro trecho, o então dono do Banco Master pede a um interlocutor que seria Alexandre de Moraes a atuação de “Andrei e Paulo” para barrar uma operação contra a instituição. As referências seriam ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral.
Além disso, o filho de Gonet teria solicitado a Vorcaro participação em um evento em Londres, com despesas custeadas pelo banqueiro. O procurador-geral foi procurado na quarta-feira (2) e na quinta-feira (3), mas não se manifestou. Em conversas com integrantes de sua equipe, Gonet negou proximidade com Vorcaro e afirmou que Moraes nunca pediu interferência em investigações relacionadas ao Banco Master.
Dentro da PGR, uma parcela dos procuradores defende que Gonet permaneça à frente do caso. Para esse grupo, a participação no evento londrino, que reuniu centenas de pessoas, não demonstraria relação de intimidade com o banqueiro. A avaliação também considera que a presença de autoridades em eventos financiados por empresários ou instituições privadas é frequente e, por si só, não comprometeria a atuação profissional.
Outra ala, porém, entende que as referências reunidas no relatório da PF são suficientes para provocar dúvidas sobre eventual conflito de interesses. Nesse entendimento, o afastamento de Gonet poderia ser adotado como medida de prudência e reduzir questionamentos sobre a condução da investigação. A preocupação ganhou força diante da participação de Moraes no episódio e da dimensão das apurações.
Nos bastidores, procuradores passaram a discutir se o Conselho Superior do Ministério Público Federal deve analisar o assunto. O órgão é responsável por promoções na carreira, processos administrativos e normas de atuação da instituição. Eventuais medidas relacionadas a ocupantes dos postos mais altos da Procuradoria também envolvem regras específicas, enquanto a responsabilização por crime de responsabilidade passa pelo Senado.
Atualmente, o vice-presidente do Conselho Superior do MPF é Nicolau Dino, irmão do ministro do STF Flávio Dino. Caso considere necessário, ele poderá convocar uma sessão colegiada para discutir o episódio. A avaliação sobre eventual suspeição, entretanto, divide integrantes da instituição, que divergem sobre a existência de elementos capazes de comprometer a atuação de Gonet.
Por fim, a Polícia Federal aponta que a interlocução entre Gonet e Vorcaro ocorreu inicialmente por meio do advogado Ciro Soares, em abril de 2024. Na ocasião, segundo o relatório, Soares enviou mensagens ao banqueiro mencionando Gonet e afirmou que o procurador-geral era “firme”. Um interlocutor de Gonet também afirma que o PGR não mantinha o número de Vorcaro salvo no próprio celular.