
A empresária Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, realizou ao menos 40 visitas ao Palácio do Planalto e a ministérios entre 2023 e 2024, mas apenas um desses encontros foi registrado nas agendas públicas das autoridades. Os dados foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e colocam em evidência o cumprimento das regras de transparência previstas para compromissos oficiais.
Do total de acessos, 17 ocorreram no Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, 15 no Ministério da Saúde e oito no Palácio do Planalto. Em parte das visitas, Roberta esteve acompanhada por representantes das empresas Duosystem e Grupo Bringel. Segundo registros, a empresária participou de reuniões com integrantes da administração federal, incluindo gabinetes ministeriais e secretarias executivas.
No Ministério do Desenvolvimento Social, o principal destino foi o gabinete do ministro Wellington Dias. Em março de 2023, Roberta realizou uma visita de cortesia, ocasião em que entregou ao ministro uma edição especial do livro O Alquimista, de Paulo Coelho, além de uma caixa de bombons. A pasta informou, via LAI, que o encontro durou cerca de cinco minutos, não teve pauta oficial e ocorreu em razão da posse do ministro.
Já no Ministério da Saúde, apenas uma das 15 reuniões aparece nas agendas oficiais. O encontro, realizado em 23 de outubro, teve como objetivo a apresentação de um sistema de gestão e regulação da saúde desenvolvido pela Duosystem, com participação de representantes da empresa e de integrantes da estrutura técnica da pasta. O ministério informou que a proposta foi analisada, mas não houve interesse em dar continuidade ao projeto.
Roberta Luchsinger é investigada pela Polícia Federal por suspeitas de ligação entre o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, e Lulinha. Em depoimento prestado neste ano, ela afirmou ter apresentado os dois. A empresária também foi alvo da Operação Sem Desconto, que apura um suposto esquema de descontos irregulares em benefícios do INSS entre 2019 e 2024. A PF aponta indícios de que ela teria atuado na ocultação de patrimônio, movimentação financeira e administração de estruturas empresariais investigadas por possível lavagem de dinheiro.
A defesa de Roberta informou que tratará do caso exclusivamente nos autos judiciais. Lulinha nega participação em qualquer irregularidade. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirmou que as reuniões ocorreram dentro das normas da administração pública, envolvendo servidores e representantes da sociedade civil, e sustentou que os encontros não produziram desdobramentos administrativos, contratuais ou regulatórios. Na terça-feira (4), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de um terceiro inquérito para investigar suspeitas de tráfico de influência envolvendo Lulinha, após solicitação da Polícia Federal.