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24 de dezembro de 2018
Bahia

‘Deixo legado de recuperação e transformação para a cidade’, diz Neto em entrevista

Foto Rede Acontece

Em entrevista concedida ao jornal Correio, publicada na edição no último domingo (23), o prefeito ACM Neto (DEM) falou sobre a escolha por não se candidatar ao governo da Bahia, planos para a eleição de 2020, acertos e desafios do futuro presidente da República. Dispara também críticas ao governador Rui Costa, a quem acusa de cometer estelionato eleitoral, aborda mudanças na equipe da prefeitura e garante que os dois próximos anos serão marcados pela conclusão de um conjunto de grandes obras e projetos maior, em número e impacto, a tudo que foi feito nos seis anos anteriores de sua gestão. Leia a entrevista abaixo: A decisão de não concorrer ao governo do estado provocou muitas reações entre líderes da oposição, a maioria de insatisfação. Como o senhor avalia hoje a opção por continuar à frente da

Esse é um episódio inteiramente superado. Foi uma decisão tomada em abril e, de lá para cá, já houve tempo suficiente para que a decisão fosse assimilada, tanto por aqueles que concordaram quanto por aqueles que discordaram. Hoje, mais do que nunca, vejo que foi uma decisão acertada. Claro que contrariou a lógica da política, que sempre é a busca por poder, por mais e mais espaços. Optei por trilhar outro caminho, que foi o de respeitar o compromisso que eu havia firmado em 2016 com a população de Salvador. Na política, existem momentos que são cruciais. Aquele foi um para minha vida. Sempre tive consciência de que as consequências, para o bem ou para o mal, recairiam sobre mim. Muitos reagiram com sentimento de contrariedade, agora compreendem que eu só tinha aquele caminho a adotar. Não há nenhum arrependimento, pelo contrário.

Mesmo assim, teria feito algo diferente no processo?

Muita gente questionou se não seria melhor ter anunciado com antecedência minha decisão. Digo que não, por dois motivos. Primeiro, porque mesmo dando todos os sinais para meu grupo – e eram sinais muito evidentes -, havia resistência muito grande de todos, que não queriam que eu decidisse por não me candidatar nem admitiam que eu antecipasse decisão negativa. E eles fizeram um trabalho legítimo de pressão até o último instante. Segundo, porque havia elementos do campo da articulação política que só ficaram claros, realmente, no final do processo. Acho que fica uma lição para o meu grupo político de que é importante ter quadros, e não apenas um só, preparados para desempenhar papéis relevantes. Apesar de que Zé Ronaldo (ex-prefeito de Feira e candidato do DEM ao governo), com toda dificuldade que enfrentou, cumpriu bem seu papel. Não fizemos feio, embora tenhamos sofrido uma derrota importante.

Acha que perdeu capital eleitoral por não se candidatar, como pensa uma parte de seus aliados e adversários políticos?

Quem vive a política sabe muito bem que ela é uma roda-gigante. Do mesmo jeito que você está embaixo em um momento, pode estar em cima logo em seguida. Tomei uma decisão a médio e longo prazos, olhando para um projeto de futuro, e não apenas a circunstância imediata ou o incômodo momentâneo. Eu sigo adiante, com tempo para continuar trabalhando, com foco em concluir minha gestão nos próximos dois anos, deixando um legado verdadeiro de recuperação e transformação para a cidade. Depois, é olhar para o futuro, com calma, equilíbrio e atenção necessários para tomar as decisões corretas. Veja que o governador Rui Costa acabou de se reeleger com votação estrondosa e já está enfrentando uma série de problemas para seu segundo mandato, cobranças inevitáveis de alguém que omitiu a situação fiscal grave que vivia o estado, com o objetivo de se reeleger.

Pensando no futuro próximo, quais são seus planos para as disputas de 2020 e 2022?

Sobre 2020, é óbvio que vou trabalhar para fazer meu sucessor e vou ter a liberdade que não tive em 2016 para participar de eleições pelo interior. Na medida em que não serei candidato, isso me deixará mais livre para me movimentar. Em relação a 2022, está muito longe para fazer planos. Ainda tem muita água para rolar.

Sobre 2020, existe um desenho prévio sobre o palanque da tropa aliada?

Temos uma base que foi montada inicialmente em 2012 e que foi sendo reforçada ao longo do tempo. É natural que entrem alguns e saiam outros. Não dá para dizer com quantos partidos iremos contar ou quais serão eles. Há uma novidade para 2020 que vai mudar muito a política do Brasil, que é o fim das coligações proporcionais. Isso vai gerar um processo inevitável de seleção natural de partidos. Cada vez serão menos legendas, o que pode gerar uma configuração diferente no jogo das eleições municipais. Felizmente, temos muitos quadros capazes de liderar uma chapa na disputa. Na hora certa, vamos trabalhar isso. Não vou antecipar calendário.

Como o senhor vê até agora as primeiras sinalizações da equipe que assumirá o comando do país?

São mais positivas do que negativas. O saldo das primeiras medidas anunciadas é positivo. Em geral, o presidente Jair Bolsonaro montou uma boa equipe. Ele tem mantido coerência com o que prometeu na campanha. Isso é uma coisa muito importante. Agora, é aguardar o jogo começar para valer. A primeira partida começa em janeiro. Já passei por isso. Você ativa um cronômetro com contagem regressiva. Existe um período de lua de mel da sociedade, de tolerância, mas que não demora. Depois, vem o período de cobranças. Eles terão que estar preparados para dar respostas.

Onde o futuro presidente tem que acertar de imediato?

O grande lance é a economia. Está provado que toda avaliação de governo depende da economia. Para ela ir bem, será preciso articulação política. Para mim, o principal desafio será construir uma maioria que garanta, nas duas Casas (Câmara dos Deputados e Senado), aprovação da agenda de reformas que o país precisa.

Quais são os pontos em que o DEM e o presidente eleito convergem e divergem?

No campo econômico, há muita convergência. Não diria que 100%, mas a maioria da agenda adotada até agora vai ao encontro do que pensamos.

Reformas estão dentro desse pacote de convergências?

Sim. A da Previdência, por exemplo. Concordamos também que é preciso simplificar o sistema tributário, diminuir o peso do estado, privatizando empresas que não têm sentido continuarem sendo públicas, reformar o setor público, eliminando privilégios inaceitáveis. Existe, contudo, outra agenda, que é menos de posição partidária e mais de posicionamento de cada parlamentar, que é a agenda de costumes. É muito provável que, nesse campo, o DEM não feche questão e libere os seus parlamentares. Um exemplo é o projeto Escola Sem Partido. Não há consenso no DEM. Há quem apoie e quem não apoie, como eu. Acho particularmente ruim. Existem outros problemas na educação para resolver. O mesmo ocorre com a redução da maioridade penal, com a flexibilização do porte de armas.

Acha que o governo Bolsonaro tende a perseguir o PT na Bahia?

Nunca vou torcer por isso, nem trabalhar por qualquer tipo de perseguição. O governador se dizia perseguido pelo presidente Michel Temer. No entanto, a Bahia foi um dos estados que mais receberam transferência de recursos do atual governo federal. Teve empréstimo do Banco do Brasil, verbas para o metrô. Chorou de barriga cheia. Se há exemplo de vítima de perseguição, esse sou eu, no período de Dilma Rousseff na Presidência. Caberá também ao governador construir seus caminhos. Não dá é para se manter no palanque, esculhambar o governo, o presidente, e cobrar como se fosse aliado.

Por que o senhor decidiu não ir à posse presidencial?

Não decidi nada ainda. O que falam é apenas mera especulação.

Achou correto o pacote de medidas do governador aprovado pela Assembleia, sobretudo quanto ao aumento da alíquota previdenciária dos servidores?

Eu sequer entrarei no mérito. Vou abordar a forma. Tínhamos um governador que, na campanha, apontava o dedo para os deputados que defenderam a reforma da Previdência ou votaram a favor da reforma trabalhista. Ele se elegeu com essa plataforma. Dizia que a Bahia vivia uma das melhores situações fiscais entre os estados do Brasil. Se gabava disso. Menos de dois meses depois de eleito, esse mesmo governador aumenta a alíquota previdenciária dos servidores e é obrigado a reconhecer que o estado enfrenta uma grave crise. Considero isso um verdadeiro estelionato eleitoral.

O senhor tem mais dois anos de mandato. Como evitar o desgaste que tradicionalmente atinge quem permanece no poder durante oito anos?

Sempre procurando se reinventar, fazendo ajustes na gestão e mudando peças. Nós vamos agora, com calma, mudar algumas posições na administração. Não apenas nos altos escalões, mas nos níveis inferiores, justamente para dar novo oxigênio à equipe. Posso dizer que os anos de 2019 e 2020 serão marcados pelas grandes entregas à população. As principais entregas da minha gestão serão nesses dois anos.

Quais são elas?

Posso fazer uma lista enorme. O Novo Mané Dendê, que será o maior conjunto de obras em saneamento básico da última década em Salvador, vai alcançar cinco grandes bairros do Subúrbio, com investimentos de R$ 500 milhões. Na educação, estamos construindo uma escola por semana. Temos o programa Pé na Escola, no qual vamos, ano que vem, matricular 11 mil crianças de 0 a 5 anos que estavam fora da pré-escola. Na saúde, estou inaugurando um posto por semana. Vamos ampliar o atendimento de urgência e emergência, inclusive com a decisão já tomada de construir a UPA da Cidade Baixa, que foi fechada pelo governo do estado. Em 2020, vamos fazer uma maratona, um grande mutirão, para zerar, de uma vez só, as filas de consultas e exames de diversas especialidades em Salvador. No turismo, vamos entregar o novo Centro de Convenções até o final do ano, obras na orla, entrega da primeira etapa da requalificação do Bonfim no início de janeiro, com a segunda ainda no primeiro semestre. No Centro Histórico, recuperação da Avenida Sete, Castro Alves, Terreiro de Jesus, Praça Cayru, implantação do Museu da Música, do Museu da História da Cidade. Na área de mobilidade, o BRT e as requalificações completas na Estrada Velha do Aeroporto e em São Cristóvão. Posso garantir que, em volume e de impacto de obras e programas, os próximos dois anos vão superar os seis anos anteriores somados.

Em que grau se dará a reformulação na prefeitura a partir de 2019?

A espinha dorsal da prefeitura já existe e funciona muito bem. Não há por que mexer. Devo mudar cinco ou seis secretários, órgãos de segundo escalão, superintendências e diretorias. Fazer rodízio em áreas operacionais que estão na ponta também. Haverá ajustes políticos a fazer, mas esse processo poder ser a conta-gotas.

Setores estratégicos, como saúde, educação, mobilidade e desenvolvimento urbano podem sofrer troca de comando?

Não posso aqui fulanizar. Quem me conhece sabe que não demito colaborador pela imprensa.